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Ética e Filosofia Clínica

José Gabriel de Oliveira Lima

Márcio José Andrade da Silva

 

 

Quero não ferir meu semelhante Nem por isso quero me ferir

Beto Guedes – Sal da Terra

 

O que é, afinal, a Ética? Somos éticos? O que é agir de forma ética? Para iniciarmos nosso diálogo um fragmento da obra de Alain Badiou, Ética – um ensaio sobre a consciência do mal.

“Certas palavras eruditas, há muito confinadas aos dicionários e à prosa acadêmica, tem que se torna, sem compreender por que a sorte, ou o azar – um pouco como uma solteirona resignada que torna, sem compreender porque, a coqueluche de um salão -, de saírem subitamente ao ar livre, de serem plebiscitadas e publicitadas, impressas, televisadas, mencionadas até nos discursos governamentais. A palavra ética, que tão fortemente sabe a grego, a curso de filosofia, que evoca Aristóteles (Ética a Nicômaco, um best-sellers famoso!), encontra-se hoje sob a luz dos holofotes.

Ética refere-se, em grego, à busca de uma “maneira de ser”, ou à sabedoria da ação. Desse modo, a ética é uma parte da filosofia, aquela que coordena a existência prática com a representação do Bem.

Foram sem dúvida os estoicos quem com mais constância fizeram da ética não apenas uma parte, mas o próprio cerne da sabedoria filosófica. O sábio é aquele que, sabendo discriminar entre as coisas que dependem dele e aquelas que não dependem, organiza sua vontade ao redor das primeiras e suporta impassivelmente as segundas. Conta-se, aliás, que os estoicos tinham o costume de comparar a filosofia a um ovo, cuja a casca era a Lógica, a clara era a Física e a gema, a Ética.

Para os modernos, para os quais a questão do sujeito, desde de Descartes, é central, ética é mais ou menos sinônimo de moralidade, ou – diria Kant – de razão prática (diferenciada da razão teórica). Trata-se das relações da ação subjetiva, e de suas intenções representáveis, com uma Lei universal. A ética é o princípio de julgamento das práticas de um sujeito, seja ele individual ou coletivo.

Notar-se-á que Hegel introduziu uma sutil distinção entre “ética” (Sittlichkeit) e “moralidade” (Moralität). Ele reserva o princípio ético à ação imediata, enquanto a moralidade concerne à ação refletida. Dirá, por exemplo, que “a ordem ética consiste essencialmente na decisão imediata”.

O atual “retorno à ética” toma essa palavra num sentido evidentemente difuso, mas certamente mais próximo de Kant (ética do juízo) que de Hegel (ética da decisão).

Na verdade, ética designa hoje um princípio de relação com “o que se pensa”, uma vaga regulação de nossos comentários sobre as situações históricas (ética dos direitos humanos), situações técnico-científicas (ética do ser vivo, bioética), situações “sociais” (ética do estar-junto), situações ligadas à mídia (ética da comunicação) etc.

Essa norma de comentários e opiniões está apoiada em instituições e dispõe de sua própria autoridade: existem “Comissões Nacionais de Ética” nomeada pelo Estado. Todas as profissões se interrogam sobre sua “ética”. Organizam-se até mesmo expedições militares em nome da “ética dos direitos humanos”. (BADIOU, Alain. Ética – um ensaio sobre a consciência do mal. Pg. 15-16, Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995)

Ora, é possível então dizer que a ética constitui-se como base para a relação humana. Há uma aspiração para que ela seja universal, especialmente nos princípios que norteiam a constituição da moral, pelo menos tem predominado assim na tradição filosófica ocidental.

Ainda que cada um seja distinto, nos parece difícil falar de ética sem separar-se dos pressupostos universais da metafísica aristotélica, quando tratamos do assunto, por exemplo: o homem, a felicidade, a natureza, etc. Desta forma é um desafio construir uma referência ética sem esses pressupostos ontológicos: de que homem estamos falando? Que visão de mundo vai embasar esse caminho ético?

Se a ética tem que nortear a nossa ação, a nossa prática – ou práxis como gostam de citar os humanistas. Como, diante da singularidade, podemos pensar uma ética não generalista? Pois, afirmar que os homens vivem em um mundo nos parece uma ilusão abstrata. Efetivamente, será que essa concepção é sustentável? O homem, como aprendemos na Filosofia Clínica vive em mundos distintos, cada pessoa é única e se constitui e compreende o mundo de forma singular. Na Filosofia Clínica, esses conceitos de alteridade, singularidade, subjetividade, ganham uma representação, uma significação e um respeito por um indivíduo único. Aliás, só há respeito, na concepção de Lévinas, mediante à consideração da alteridade, perceber o outro como verdadeiramente outro, e não como eu quero concebê-lo. Portanto, tratar da ética de forma universalista fica muito abstrato. Então que ética buscamos?

Vivemos desta forma um grande paradoxo. Como sugerir caminhos para sairmos dessa espécie de armadilha? A teoria levinasiana de alteridade, defende fortemente essa premissa: cada um é exclusivo. Nós existimos a partir do outro, segundo o filósofo lituano. Somos únicos em relação ao outro, nossa existência só faz sentido por vivermos em interseção com o outro, como diz Aristóteles: “o homem é um animal político”, um sujeito da Polis, um ser social.

Outra referência diante disso nos é dada por Protágoras, que afirma ser cada um a sua própria medida. Ora, se cada um é um ser único, que mensura o mundo através de suas singulares lentes, como sustentar uma ética para todos? Uma única ética que governe a ação de todos? Ainda que não seja razoável visualizar o convívio humano sem um norte abrangente, uma ética universal.

Como responder a essa questão? Como querer agregar ou superar isso, se temos isso em nossa constituição, em nossa cultura herdada dos conceitos gregos de herói, o individual que se destaca e supostamente resolve o problema da coletividade? A modernidade retoma e reforça esse conceito do herói de forma deturpada, pois é um individualismo massificado. É o EUindivíduo distinto do eu-individualista.

O primeiro possuidor de uma identidade própria, sobretudo no pensar, no discernimento em ser, que se reflete em seu agir no mundo. Ele não parte de referências impostas ou reproduzidas do mundo exterior, ele não é um imitador. O indivíduo fortalece, e é fortalecido, por essa coletividade anárquica, desmassificada. sua qualidade é diferente porque a característica central dessa coletividade é a consideração pela distinção que cada um é, ou tem, em outras palavras a singularidade.

O segundo é o sujeito que se vale da coletividade. Por se referenciar em padrões sociais, existenciais, alheios, etc. Ele é portador de uma identidade obscura, uma falsa identidade que ele acredita ser sua. Se vale da crença em um sujeito universal coletivo, o que é uma ilusão, por no mínimo dois motivos: 1) não existe o homem universal e 2) essas referências não lhe pertencem, são alheias, daí o indivíduo alienado (o eu-individualista). Apesar de observarmos um discurso de defesa da coletividade, em verdade ele é imbuído de uma essência do “herói grego” do melhor da espécie, do vencedor, aquele que está acima dos outros. A sociedade da competição. Apesar do discurso de que “cada um é um” e, dessa forma, todos são iguais. Isso é visível no âmbito político, propiciando o aparecimento e a sustentação de chefes, líderes, ídolos, ou seja, o herói grego, como Ulisses, Aquiles etc.

Uma prova disso é que quando esse líder atinge o destaque, ele, quase sempre, se volta opressivamente contra os que o criaram e deram sustentação para ele ser. Ele, de certa forma torna-se um indivíduo, no entanto é um indivíduo sem consistência porque não é resultado da igualdade ética. Que seria um conjunto verdadeiramente formado de indivíduos de fato. Ele é, dessa forma, um acidente dessa construção de uma sociedade homogeneizada. Tornando-o ilegítimo.

Desta forma a busca socrática, realizada através da maiêutica, visa “limpar” a estrutura existencial do sujeito dos agendamentos sociais sofridos, assim, abrindo caminho para que ele possa ser ele de fato.

A Filosofia Clínica, enquanto uma proposta ética, procura escutar o outro e, através de seu ferramental teórico, permitir que a pessoa comece um caminhar em busca de suas verdadeiras questões.