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Leitura (1892), tela de Almeida Júnior.

Cada um lê e interpreta com os olhos que tem?!? – Ercílio Facanali

Quem degusta com prazer e esmero do conhecimento, que gosta veementemente de uma boa leitura e aprofunda nas pesquisas, escrevendo e compartilhando suas ideias, muitas vezes acaba não sendo entendido nem muito bem recebido por uma boa parte do público… Por que será que ocorre esse desentendimento entre quem escreve e quem está lendo? Poderíamos chamar todos os que não concordam de reacionárias, gregários e que não tem nenhum compromisso com o saber? De qualquer maneira, como consequência do mal entendido, uma boa parte dos que se preocupam com a pesquisa ou com algo novo, inusitado, infelizmente, aos poucos vai sendo expulso de algum paraíso…

Dizem que o fruto do saber afronta e faz um mal muito grande aos arrogantes e principalmente aos turrões, que muitas vezes se opõem a tudo e a todos sem nenhuma fundamentação e nem entendimento preciso do assunto… Mas devo dizer com todas as letras e lealdade: não vejo nenhum mal se a pessoa é ou deixa de ser desenformada ou descuidada em relação à leitura e à pesquisa… Mesmo porque, com toda a liberdade possível, cada um cria o seu modo único de vida e deve dar conta do seu sucesso ou fracasso… Embora já ouvisse dizer que a leitura em excesso prejudica a saúde…  Mas cá para nós, é precisa alertar que para muitos e muitas, uma boa leitura faz bem à saúde mental e ao corpo todo…

E mais: mesmo não concordando com o que está lendo ou interpretando; parece não haver nenhum efeito colateral que possa perturbar a mente por muito tempo… Aliás, muitas vezes, no decorrer do tempo, as opiniões podem até mudar de endereço… Parece que tudo depende do momento histórico ou da circunstância a qual  cada um está vivendo… É como diz aquela velha e conhecida história popular: “enquanto um está levando o fubá para ser cozido; o outro já está com a polenta pronta e quentinha para ser degustada”… Nós somos seres livres e diferentes um do outro… E, sem dúvida, é exatamente isso que dá sentido à nossa caminhada existencial…

Por isso, não vamos perder tempo no tempo, porque querendo ou não, ele é patético e passa de repente, mas para a nossa sorte e felicidade, sempre deixa espalhadas algumas sementes do bom entendimento pelo Universo… Mas todo cuidado é pouco, porque a sementeira do saber mesmo caindo em terra fértil, do plantio à colheita necessita de cuidado e ponderação para produzir bons frutos… No entanto, é praticamente impossível desvendar com precisão a chave que trava e destrava o enigma do silêncio que mora dentro de cada um de nós… Mesmo porque, não se tem noção dos valores que cada ser desse imenso Planeta Terra, estrutura e presa no seu precioso interior…

Mas poderíamos perguntar: onde está de fato esse tão badalado conhecimento, que se comenta por todos os lados e parece esconder do nosso controle? Será que tem um lugar certo para ser encontrado e admirado? O saber já tem um caminho predeterminado por algum sábio guru para ser seguido? É um receituário que está pronto para todos e todas, que precisa ser seguido passo a passo às normas estabelecidas? Este conhecimento está dentro de nós ou está espalhado pelo Universo? Pois bem, se para conhecer algo precisamos seguir um caminho já traçado, qual é nosso mérito? Deste modo, nós que deveríamos ser protagonista da nossa história, podemos nos tornar seres totalmente obsoletos…

Entretanto, não se pode pintar diferente da cor que cada um já tem e mantem dentro do seu coração… Caiar o outro da cor que eu gostaria que ele fosse poderá tirar dela ou dele o seu verdadeiro brilho, a sua verdadeira essência como ser humano ou sua magia existencial…  Como diz com muita propriedade o ilustre educador, Paulo Freire: “todos nós sabemos alguma coisa…” “Todos nós ignoramos alguma coisa…” “Por isso, aprendemos sempre…” De qualquer maneira, é necessário que se faça, sem trégua, uma nova leitura da realidade onde está inserido… É aquela velha e conhecida história: vivendo e aprendendo… Aprendendo e vivendo, porque o paraíso é de todos e para todos…

De qualquer maneira, uma coisa parece estar mais clara dentro de cada um de nós, ninguém em sã consciência ou perturbado por alguma coisa ou por alguém, vai expor tudo o que está sentindo e pensando, senão acabará por esgotar o seu verdadeiro ser… É isso mesmo… Seria um desastre para o ser humano se ele falasse por completo tudo que está dentro e fora do seu interior… Mesmo porque, um ser de plasticidade, jamais poderá se sentir vazio e deixar de posicionar diante de questões polêmicas… De ser taxado de não ter mais as suas próprias opiniões… De não falar muito por receio de cometer asneiras ou de achar que já concluiu tudo na vida e que não precisa dizer mais nada para ninguém… É como frear um carro e desligar o seu motor…

Mas, refletindo um pouco mais, vamos percebendo que não somos e nunca vamos ser semelhantes a uma máquina que tem um manual de instrução, mas é inoperante por si só e depende de nós para funcionar… Com diz com muita propriedade o ilustre Leonardo Boff: “cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é um ponto…” Eu posso, no entanto, parar de aprender, mas a vida não perdoa e jamais vai parar de ensinar… E eu sinto e tenho plena certeza que é exatamente isso que dá sentido à nossa caminhada existencial…

Ética e Filosofia Clínica

José Gabriel de Oliveira Lima

Márcio José Andrade da Silva

 

 

Quero não ferir meu semelhante Nem por isso quero me ferir

Beto Guedes – Sal da Terra

 

O que é, afinal, a Ética? Somos éticos? O que é agir de forma ética? Para iniciarmos nosso diálogo um fragmento da obra de Alain Badiou, Ética – um ensaio sobre a consciência do mal.

“Certas palavras eruditas, há muito confinadas aos dicionários e à prosa acadêmica, tem que se torna, sem compreender por que a sorte, ou o azar – um pouco como uma solteirona resignada que torna, sem compreender porque, a coqueluche de um salão -, de saírem subitamente ao ar livre, de serem plebiscitadas e publicitadas, impressas, televisadas, mencionadas até nos discursos governamentais. A palavra ética, que tão fortemente sabe a grego, a curso de filosofia, que evoca Aristóteles (Ética a Nicômaco, um best-sellers famoso!), encontra-se hoje sob a luz dos holofotes.

Ética refere-se, em grego, à busca de uma “maneira de ser”, ou à sabedoria da ação. Desse modo, a ética é uma parte da filosofia, aquela que coordena a existência prática com a representação do Bem.

Foram sem dúvida os estoicos quem com mais constância fizeram da ética não apenas uma parte, mas o próprio cerne da sabedoria filosófica. O sábio é aquele que, sabendo discriminar entre as coisas que dependem dele e aquelas que não dependem, organiza sua vontade ao redor das primeiras e suporta impassivelmente as segundas. Conta-se, aliás, que os estoicos tinham o costume de comparar a filosofia a um ovo, cuja a casca era a Lógica, a clara era a Física e a gema, a Ética.

Para os modernos, para os quais a questão do sujeito, desde de Descartes, é central, ética é mais ou menos sinônimo de moralidade, ou – diria Kant – de razão prática (diferenciada da razão teórica). Trata-se das relações da ação subjetiva, e de suas intenções representáveis, com uma Lei universal. A ética é o princípio de julgamento das práticas de um sujeito, seja ele individual ou coletivo.

Notar-se-á que Hegel introduziu uma sutil distinção entre “ética” (Sittlichkeit) e “moralidade” (Moralität). Ele reserva o princípio ético à ação imediata, enquanto a moralidade concerne à ação refletida. Dirá, por exemplo, que “a ordem ética consiste essencialmente na decisão imediata”.

O atual “retorno à ética” toma essa palavra num sentido evidentemente difuso, mas certamente mais próximo de Kant (ética do juízo) que de Hegel (ética da decisão).

Na verdade, ética designa hoje um princípio de relação com “o que se pensa”, uma vaga regulação de nossos comentários sobre as situações históricas (ética dos direitos humanos), situações técnico-científicas (ética do ser vivo, bioética), situações “sociais” (ética do estar-junto), situações ligadas à mídia (ética da comunicação) etc.

Essa norma de comentários e opiniões está apoiada em instituições e dispõe de sua própria autoridade: existem “Comissões Nacionais de Ética” nomeada pelo Estado. Todas as profissões se interrogam sobre sua “ética”. Organizam-se até mesmo expedições militares em nome da “ética dos direitos humanos”. (BADIOU, Alain. Ética – um ensaio sobre a consciência do mal. Pg. 15-16, Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995)

Ora, é possível então dizer que a ética constitui-se como base para a relação humana. Há uma aspiração para que ela seja universal, especialmente nos princípios que norteiam a constituição da moral, pelo menos tem predominado assim na tradição filosófica ocidental.

Ainda que cada um seja distinto, nos parece difícil falar de ética sem separar-se dos pressupostos universais da metafísica aristotélica, quando tratamos do assunto, por exemplo: o homem, a felicidade, a natureza, etc. Desta forma é um desafio construir uma referência ética sem esses pressupostos ontológicos: de que homem estamos falando? Que visão de mundo vai embasar esse caminho ético?

Se a ética tem que nortear a nossa ação, a nossa prática – ou práxis como gostam de citar os humanistas. Como, diante da singularidade, podemos pensar uma ética não generalista? Pois, afirmar que os homens vivem em um mundo nos parece uma ilusão abstrata. Efetivamente, será que essa concepção é sustentável? O homem, como aprendemos na Filosofia Clínica vive em mundos distintos, cada pessoa é única e se constitui e compreende o mundo de forma singular. Na Filosofia Clínica, esses conceitos de alteridade, singularidade, subjetividade, ganham uma representação, uma significação e um respeito por um indivíduo único. Aliás, só há respeito, na concepção de Lévinas, mediante à consideração da alteridade, perceber o outro como verdadeiramente outro, e não como eu quero concebê-lo. Portanto, tratar da ética de forma universalista fica muito abstrato. Então que ética buscamos?

Vivemos desta forma um grande paradoxo. Como sugerir caminhos para sairmos dessa espécie de armadilha? A teoria levinasiana de alteridade, defende fortemente essa premissa: cada um é exclusivo. Nós existimos a partir do outro, segundo o filósofo lituano. Somos únicos em relação ao outro, nossa existência só faz sentido por vivermos em interseção com o outro, como diz Aristóteles: “o homem é um animal político”, um sujeito da Polis, um ser social.

Outra referência diante disso nos é dada por Protágoras, que afirma ser cada um a sua própria medida. Ora, se cada um é um ser único, que mensura o mundo através de suas singulares lentes, como sustentar uma ética para todos? Uma única ética que governe a ação de todos? Ainda que não seja razoável visualizar o convívio humano sem um norte abrangente, uma ética universal.

Como responder a essa questão? Como querer agregar ou superar isso, se temos isso em nossa constituição, em nossa cultura herdada dos conceitos gregos de herói, o individual que se destaca e supostamente resolve o problema da coletividade? A modernidade retoma e reforça esse conceito do herói de forma deturpada, pois é um individualismo massificado. É o EUindivíduo distinto do eu-individualista.

O primeiro possuidor de uma identidade própria, sobretudo no pensar, no discernimento em ser, que se reflete em seu agir no mundo. Ele não parte de referências impostas ou reproduzidas do mundo exterior, ele não é um imitador. O indivíduo fortalece, e é fortalecido, por essa coletividade anárquica, desmassificada. sua qualidade é diferente porque a característica central dessa coletividade é a consideração pela distinção que cada um é, ou tem, em outras palavras a singularidade.

O segundo é o sujeito que se vale da coletividade. Por se referenciar em padrões sociais, existenciais, alheios, etc. Ele é portador de uma identidade obscura, uma falsa identidade que ele acredita ser sua. Se vale da crença em um sujeito universal coletivo, o que é uma ilusão, por no mínimo dois motivos: 1) não existe o homem universal e 2) essas referências não lhe pertencem, são alheias, daí o indivíduo alienado (o eu-individualista). Apesar de observarmos um discurso de defesa da coletividade, em verdade ele é imbuído de uma essência do “herói grego” do melhor da espécie, do vencedor, aquele que está acima dos outros. A sociedade da competição. Apesar do discurso de que “cada um é um” e, dessa forma, todos são iguais. Isso é visível no âmbito político, propiciando o aparecimento e a sustentação de chefes, líderes, ídolos, ou seja, o herói grego, como Ulisses, Aquiles etc.

Uma prova disso é que quando esse líder atinge o destaque, ele, quase sempre, se volta opressivamente contra os que o criaram e deram sustentação para ele ser. Ele, de certa forma torna-se um indivíduo, no entanto é um indivíduo sem consistência porque não é resultado da igualdade ética. Que seria um conjunto verdadeiramente formado de indivíduos de fato. Ele é, dessa forma, um acidente dessa construção de uma sociedade homogeneizada. Tornando-o ilegítimo.

Desta forma a busca socrática, realizada através da maiêutica, visa “limpar” a estrutura existencial do sujeito dos agendamentos sociais sofridos, assim, abrindo caminho para que ele possa ser ele de fato.

A Filosofia Clínica, enquanto uma proposta ética, procura escutar o outro e, através de seu ferramental teórico, permitir que a pessoa comece um caminhar em busca de suas verdadeiras questões.

FILOSOFIA CLÍNICA – prof. Gabriel Lima

Filosofia Clínica, inovação de considerável relevância na uso e na concepção da filosofia geral e, sobretudo na peculiaridade com a qual enfoca os indivíduos humanos. Passou a ser divulgada em meados da década de 1990 e vem conquistando um crescente número de adeptos e praticantes em diversas cidades do Brasil e inicia sua expansão em outros países. A Filosofia Clínica não é voltada só para filósofos, mas também destina-se a profissionais e estudiosos de outras áreas como saúde, educação e humanidades em geral.

Um dos elementos distintivos da Filosofia Clínica é o seu caráter prático-aplicativo. O exercício especulativo ganha pouco espaço se comparado ao uso prático adaptado de metodologias e conceitos oriundos de diversos pensadores e correntes filosóficas sempre destinados ao serviço de uma prática terapêutica e educativa. A resultante dessa composição tão diversificada que caracteriza a Filosofia Clínica está na vanguarda de nosso tempo histórico, destacadamente no que se refere à sensibilidade com que procura lidar com as pessoas. Nela cada indivíduo é concebido por uma perspectiva única desde sua comunicação até os elementos mais densos e abrangentes da existência. É a busca do autêntico respeito, de uma verdadeira alteridade, por uma efetiva deferência ao outro. Desconsidera, portanto, rótulos preestabelecidos acerca do indivíduo.

Ao observar a constituição e os potenciais da Filosofia Clínica assentados em seus princípios éticos e humanísticos como norteadores do árduo trabalho que é desbravar este mundo, pode-se vislumbrar um devir colorido por tons tão avançados que os nossos prismas contemporâneos não estão habituados a registrar. Inéditas configurações intelectivas e enfoques mais lúcidos estão sendo edificados por essa nova arquitetura filosófica.